Micron prevê crise de DRAM até pelo menos 2028 e escassez deve afetar novos consoles
CEO da fabricante afirma que oferta de memória não conseguirá acompanhar a demanda impulsionada por IA nos próximos anos. Preços devem permanecer elevados e novas fábricas não terão capacidade significativa antes de 2028.

A Micron, uma das maiores fabricantes de memória do mundo, afirmou que a crise global de abastecimento de DRAM deve se estender até pelo menos 2028. O alerta foi feito pelo CEO Sanjay Mehrotra durante a teleconferência de resultados do terceiro trimestre fiscal de 2026, realizada em 24 de junho. A empresa registrou receitas recordes no período, mas a atenção do mercado se voltou para a perspectiva de longo prazo para os preços da memória.
Demanda de IA consome recursos e alonga ciclo de escassez
O principal fator por trás da crise é a demanda crescente por infraestrutura de inteligência artificial. Data centers e aceleradores consomem grandes volumes de DRAM avançada, incluindo DDR5 e memórias de alta largura de banda (HBM). Esses produtos geram margens significativamente maiores que os módulos convencionais, o que reorientou a produção das fabricantes.
A Micron, assim como Samsung e SK Hynix, deslocou parte de sua capacidade de wafer que antes abastecia o mercado de PCs e notebooks para atender ao setor de IA. O resultado é um cenário onde a produção total de memória pode até crescer, mas a disponibilidade para dispositivos de consumo permanece restrita. O CEO Sanjay Mehrotra afirmou que “mesmo que esperemos que a oferta da indústria melhore gradualmente em 2028, atualmente não temos visibilidade de quando a oferta de memória será capaz de acompanhar a demanda crescente”.
Nova capacidade não chegará a tempo de aliviar a pressão
A construção de novas fábricas é a solução óbvia, mas o processo é lento e caro. Mehrotra enfatizou que a manufatura de memória é um negócio de capital intensivo com ciclos de construção extremamente longos. Uma fábrica moderna de memória pode levar vários anos desde o início da construção até a produção em volume total e qualificada.
A Micron já iniciou a construção de uma megafábrica em Nova York, que deve ser concluída no início de 2029. A empresa também planeja comprar uma fábrica da PSMC em um acordo de US$ 1,8 bilhão, que deve começar a produzir DRAM em volume significativo apenas no final de 2027. A capacidade dessas novas instalações, no entanto, não será suficiente para aliviar a pressão sobre os preços antes de 2028. O vice-presidente da Micron, Christopher Moore, explicou que “para aumentar drasticamente o número de bits, precisamos de mais espaço de sala limpa. E isso leva muito tempo”.
Preços elevados e impacto em produtos de consumo
A combinação de demanda crescente e oferta restrita já produziu efeitos concretos. Os preços dos módulos de memória dispararam, e o custo de um pente de RAM já supera o de um console como o PS5 em alguns mercados. O analista da Citi, Malik, espera que os preços médios de venda da DRAM aumentem 200% em 2026, com os preços spot já 52% mais altos desde o início do ano.
A escassez deve afetar diretamente o lançamento de novos consoles. O TechPowerUp listou o Xbox Helix, o PS6 e o PS6 Portátil, além do Steam Machine, como produtos que devem sofrer com preços elevados devido à crise. A Valve já declarou que não está otimista quanto a uma redução no preço do Steam Machine tão cedo. No mercado de PCs, fabricantes como a Lenovo já afirmaram que os aumentos de preço da memória devem se tornar a nova norma.
Apesar do impacto negativo para os consumidores, a Micron colhe os frutos da crise. A empresa registrou margens brutas recordes no terceiro trimestre de 2026. Mehrotra afirmou que as margens futuras “serão bem além do pico que experimentamos no passado”. A empresa também firmou mais de uma dúzia de novos contratos com clientes, com preços mínimos e máximos estabelecidos, que devem garantir “níveis de rentabilidade sem precedentes”. Cerca de 20% dos embarques de DRAM e um terço dos de NAND já estão cobertos por acordos fixos, garantindo US$ 100 bilhões em receita.
Efeitos no mercado brasileiro
Para o consumidor brasileiro, o cenário é desafiador. A escassez global de DRAM já pressiona os preços de PCs, notebooks e smartphones para cima. A importação de componentes, que já sofre com a carga tributária e a volatilidade cambial, deve ficar ainda mais cara nos próximos anos. A disponibilidade de produtos como o PS6 e o Xbox Helix no país também pode ser afetada, com preços mais altos e possível atraso nos lançamentos. Não há previsão de alívio no curto prazo para o mercado nacional, que depende quase totalmente de importações de memória.




